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quinta-feira, 28 de março de 2013

Sexta-feira da Paixão


SERMÃO DAS SETE PALAVRAS

A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem (1 Cor  1, 18)


1.    Introdução

Há uma tradição na Igreja de proferir um sermão sobre as sete frases que Jesus disse enquanto estava na cruz. A Sexta-feira da Paixão é a data escolhida para refletir sobre a morte de Jesus. As reflexões que se seguem têm como objetivo exclusivo nos inserir no cenário da execução de Jesus e de seu significado teológico. A cena do Filho do Homem Crucificado constitui o drama fundamental da conversão dos gregos e dos judeus na compreensão do Apóstolo Paulo: A loucura da Cruz. “Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1 Cor 1, 18). A apresentação do Cristo vitorioso era motivo de empolgação nas pregações da Igreja primitiva, mas quando se falava da cruz era escândalo e loucura.  Os judeus jamais aceitariam que o filho de Deus morresse crucificado, os gregos achavam loucura porque não aceitavam como um Deus podia se humilhar assim.
Os gregos estavam acostumados com deuses com hábitos humanos, mas sempre cheios de vitória, imunes ao sofrimento. A mensagem de salvação escandaliza o mundo antigo ao anunciar Jesus, o Filho de Deus, que experimentou a morte de forma humilhante. A crucificação era a pena máxima aplicada pelo Império Romano. A Carta aos Filipenses interpreta a linguagem da cruz a partir da ideia de ‘esvaziamento’. “Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana” (Fl 2, 7). Portanto, a linguagem da cruz deve nos ensinar dois aspectos da fé: a) A morte de Jesus não foi aparente, foi verdadeira, ele foi humano em tudo; b) A cruz que era escândalo se torna instrumento de superação com a fé na ressurreição. O sofrimento e a superação fazem parte dos altos e baixos da fé, todo cristão deve abraçar esta realidade. Não há cristianismo sem cruz, mas não podemos também parar na cruz sem a ressurreição e tornar esta cena simplesmente um motivo para converter outros pela culpa.
Enfim, recordemos a homilia do papa Francisco no último dia 14 de março no encontro com os cardeais: “Quando caminhamos sem a cruz, quando edificamos sem a cruz e quando confessamos um Cristo sem cruz, não somos discípulos do Senhor”.[1] Não importa a posição que você representa na Igreja, mas a confissão da fé não pode se reduzir a uma terapia ilusória que esconda a linguagem da cruz.
Este é o cristianismo que temos para anunciar ao mundo pós-moderno, principalmente aos jovens cujo tema da Campanha da Fraternidade 2013 faz referência a eles: “Fraternidade e Juventude”. O lema é a resposta que se espera destas novas gerações: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6, 9). Neste sentido, vamos refletir sobre as sete frases proferidas por Jesus na cruz.

2.    Primeira Frase: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)

     Diante daquele clima de crueldade, Jesus se mantém fiel aos seus preceitos. O momento mais favorável para demonstrar a coerência moral de um homem é nas situações adversas. Naquele momento da crucificação, enquanto os soldados sorteiam e repartem as suas vestes, Jesus recorre ao mandamento do amor, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”. O sorteio das vestes torna o momento mais desfavorável ainda à dor do crucificado. As pessoas agem repartindo a herança do condenado já o considerando como morto e tudo isso feito na sua presença.
     As primeiras palavras de Jesus na cruz abrem espaço para uma ampla reflexão sobre o perdão. Qual é o limite para se perdoar alguém? Jesus o faz em uma situação muito extrema. Por muitas vezes, o Mestre já havia ensinado sobre o perdão. Pedro o interrogou certo dia sobre o limite para se perdoar alguém, e ouviu como resposta: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta e sete vezes” (Mt 18, 22). O simbolismo do sete é sempre presente nas Escrituras, não é à toa que estamos proferindo o Sermão das Sete Palavras. O número sete significa perfeição. Neste caso da resposta de Jesus a Pedro, estamos falando de totalidade e infinitude. Em outras palavras, Jesus afirmou que não há limites para perdoar.
      O perdão é certamente a atitude que brota de alguém que aprendeu a dimensão do amor. O ódio gera cada vez mais violência, portanto, não é sensato pagar ódio com ódio. Não há dúvidas de que gentileza gera gentileza. Em Mateus 5, Jesus faz uma revisão dos mandamentos e completa o sentido da Lei ao dizer que devemos amar nossos inimigos. A expressão é muito dura. Amar os inimigos? Mas em que sentido nós devemos amá-los? No mesmo texto aparece uma expressão muito significativa “não resistais ao homem mau” (Mt 5, 39).
     Na verdade, temos de acreditar no bem acima de toda encarnação do mal. Não resistir ao mal quer dizer não responder à provocação do mal, pagando a ofensa na mesma moeda como prescrevia a Lei do Talião. Se alguém reconhece alguma ação como má e reage da mesma forma ao ser ofendido, este alguém se igualou ao mau. Portanto, começará um ciclo de injustiça sem fim. A vingança acaba por envenenar todo mundo. Amar os inimigos e orar por eles significa interromper um ciclo de domínio do mal, destruindo-o com o bem. Muitos preferem ceder ao mal justamente porque este é mais ruidoso, mais rápido. Destruir é sempre mais fácil porque é negação da vida. Já o bem é lento, demora mais para ser construído, pois depende de cuidado.
     Um cristão não aprende a amar e a perdoar de modo mágico. Todo ser humano depende de um ritmo para aprender. É amando que se aprende a amar, é perdoando que se aprende a perdoar. E esta atitude dá impulso ao ciclo de boas ações. Francisco de Assis, naquela oração atribuída a ele, diz que “é perdoando que se é perdoado”. Quem se abre à possibilidade de perdoar, atrairá muito mais amor sobre si.
      A mensagem cristã se sustenta sobre o mandamento do amor. A 1ª Carta de João afirma “O que ama seu irmão permanece na luz” (1 Jo 2, 10). A imagem que o autor usa para demonstrar a condição de quem ama é o caminho na luz, o ódio é semelhante às trevas, ele cega e fecha a direção do nosso caminhar, o destino do homem. As pessoas que se entregam a uma vida de violência não conseguem vislumbrar o futuro delas, estão sujeitas a serem vítimas da própria violência a qualquer momento. Segundo o apóstolo, o cristão é chamado a viver o amor. Pois o novo mandamento deixado por Jesus é o mandamento do amor: “Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13, 34).

3.    Segunda Frase: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43)

     Nos Evangelhos o crucificado que reconhece a inocência de Jesus não recebe nome. Mais tarde várias tradições o identificaram pelo nome de Dimas[2]. Já o criminoso que acusou Jesus foi chamado de Gestas. Sem mais seguras condições históricas para dar nomes a eles, assim os chamaremos. A palavra grega sémeron, usada para dizer hoje, quer dizer “este dia, hoje mesmo”.
     A atitude de Jesus com o criminoso a quem chamaremos de Dimas nos faz refletir sobre a misericórdia divina. Aquele homem era realmente um criminoso. No texto bíblico, ele mesmo admite ser culpado. E assim que ele reconhece a inocência de Jesus e pede para ser lembrado no Reino, Jesus faz a promessa de introduzi-lo no Paraíso. Portanto, a salvação acontece “hoje mesmo”. Não importa se ele se arrependeu cedo ou tarde. O tempo dele era aquele.
            Jesus quando ainda pregava contou uma parábola sobre os trabalhadores da vinha.  O dono da vinha saiu chamando trabalhadores várias horas do dia e combinou com cada um deles um denário. Há trabalhadores que começaram de manhã e outros chegaram na última hora. O dono pagou a todos o mesmo salário. Um deles reclamou alegando ter suportado o sol o dia todo e ter recebido o mesmo salário daqueles que chegaram no fim da tarde. O dono lhe respondeu: Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti. Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?” (Mt 20, 13-15).  Quando nos escandalizamos com a generosidade de Jesus em perdoar e salvar temos a mesma atitude daquele trabalhador, estamos com inveja da bondade de Deus. A ele cabe distribuir seus bens segundo seu coração misericordioso. Na ânsia de julgar nós estabelecemos critérios no lugar de Deus apontando quem deve ser salvo ou não.
            Mas aí na cruz está a surpresa. A todos é dado um mesmo salário não importa a hora que pessoa aderiu à fé. Na verdade, Dimas nem teve tempo de demonstrar muitas ações de sua conversão. A revolução aconteceu interiormente quando ele reconheceu que Jesus era justo e que podia salvá-lo. E o primeiro passo do processo da conversão é este. A pregação de Jesus no Evangelho de Marcos inicia com um duplo imperativo: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). O verbo grego metanóiete é muito significativo, que dizer “mude de ideia, mude de pensamento”. Portanto, esta revolução interior já é o suficiente e o ponto de partida do encontro com Jesus.
Muitas pessoas no Evangelho operaram esta revolução ao se encontrar com Jesus.  Em muitas situações Jesus acolheu pessoas excluídas na sociedade da época e as transformou. Levi ouviu o chamado e logo o seguiu, deixando seu ofício para trás (Lc 5, 27-32). Zaqueu queria ver Jesus e partir deste encontro ele mudou de mentalidade e se dispôs a restituir os prejuízos causados aos outros (Lc 19, 1-10). Outro exemplo é o encontro com a samaritana. Aquela mulher se transformou pelas palavras de Jesus e se tornou testemunha para os seus conterrâneos (Jo 4, 5-42). Em todos os casos, é claro que Jesus foi criticado pelos fariseus. Mas sua posição é clara, seu objetivo é buscar os pecadores.
Jesus demonstrou atitude de acolhida, de perdão e de amor incondicional. A mensagem está clara! Mesmo assim muitos cristãos hoje se comportam como os fariseus. Eles rejeitam os pecadores e condenam quem os acolhe. Não se pode pensar hoje um cristianismo sem o Evangelho encarnado na vida. Temos de acolher as minorias rejeitadas de nossa sociedade, superando preconceitos e moralismos.

4.    Terceira Frase: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho eis aí a tua Mãe!” (Jo 19, 26-27)

     Jesus confiou sua mãe ao discípulo a quem amava.  Ele é identificado no texto simplesmente como o discípulo amado. A tradição o identificou como João. No século II, Ireneu de Lião testemunhou a favor desta identificação: “Depois, João, o discípulo do Senhor, aquele que se reclinou sobre seu peito, também ele editou o Evangelho enquanto residia em Éfeso da Ásia”[3]. Jesus confia sua mãe ao discípulo, identificando um e outro como mãe e filho. A tradição cristã mais tarde identificou João como o guardião de Maria e segundo alguns relatos eles teriam vivido em Éfeso, na Turquia. Onde Maria supostamente faleceu hoje existe uma capela chamada de Casa de Maria, centro de peregrinações.
     O discípulo amado teve o mérito de receber Maria em sua companhia justamente pela fidelidade. Enquanto todos os discípulos se dispersaram, ele permaneceu ao lado de Maria, Maria de Clopas e Maria Madalena próximo a cruz. Na última ceia, este discípulo estava mais perto de Jesus e intercedeu por Pedro perguntando a Jesus quem o trairia (Jo 13, 22-26). Na cena da ressurreição o Discípulo Amado corre junto com Pedro e chega primeiro para verificar o túmulo vazio. Depois da ressurreição o discípulo reconhece Jesus no lago de Tiberíades (Jo 21, 7). Portanto, ele esteve presente em muitos momentos decisivos.
     Outro aspecto importante da cena em torno da cruz é a presença das mulheres.  No Evangelho de João, elas têm um papel muito importante. As únicas pessoas próximas a Jesus que não o abandonaram na hora da crucificação. O gesto da entrega de Maria ao discípulo amado revela o cuidado que Jesus tem com sua mãe até no último momento ele se preocupa com o seu bem-estar. Desta passagem se aprende o dever do cuidado com a mãe.

5.    Quarta Frase: “Tenho Sede!” (Jo 19, 28)

            Enquanto as demais manifestações de Jesus na cruz dizem respeito a emoções, a expressão “Tenho sede!” indica uma necessidade fisiológica. Um homem privado da liberdade e da sua dignidade, preso, maltratado, passou horas sendo exposto a situações extremas. Seu pedido por água demonstra o peso da condenação, do cansaço do castigo. Ele recebe como resposta uma esponja embebida de vinagre. E não tem direito nem de matar a sede.
     Quando falamos desta passagem temos de ter o cuidado para não espiritualizar tudo. É bom ressaltar que Jesus falou de sede ‘corporal’. O direito de ser saciado ao sedento é um direito fundamental assim como a comida. São as primeiras necessidades! O discurso de Jesus sobre as obras de misericórdia considera este dever moral. À pergunta sobre “quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber?”, Jesus responde “cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 31-46). Aliás, o Mestre coloca estas ações como condições para receber o Reino como herança. Portanto, o dever de saciar os sedentos e os famintos está no cerne da moral do Evangelho.
     Segundo um relatório da ONU mais de um bilhão de pessoas no mundo não têm acesso a uma quantidade mínima aceitável de água potável. A água possui um rico simbolismo nas Escrituras justamente por representar um elemento indispensável à vida. A transformação da água em vinho nas bodas de Caná é um típico exemplo disso. Assim como as águas do batismo. O mesmo relatório estima que 5,5 bilhões de pessoas poderão não ter acesso à água limpa em 2025. E em 2050 apenas um quarto da humanidade vai dispor de água para satisfazer suas necessidades.[4] A escassez de água possui um fator natural devido à distribuição desigual de água no planeta, mas o fator econômico agrava mais ainda. Falta no mundo disposição para partilhar, para cuidar para que todos tenham acessos aos elementos básicos para uma vida digna. Não temos como pensar uma moral cristã sem o cuidado com o meio ambiente.

6.    Quinta Frase: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27, 46)

     Diante de tanta dor Jesus exclama a Deus interrogando-o pelo abandono. Sim, esta é uma atitude até comum por parte de um homem diante da tragédia. Mas em que sentido Jesus entende este “abandono”? Esta expressão nos remete ao Salmo 22. O Salmo começa assim: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As palavras do meu rugir estão longe de me salvar! Meu Deus, eu grito de dia, e não me respondes, de noite, e nunca tenho descanso”. É a típica prece de quem está na aflição. Nos versículos seguintes, depois de descrever sua situação de sofrimento, o salmista diz que Deus não desprezou o pobre e promete testemunhar suas maravilhas por ouvir quem a ele recorre. Portanto, é um salmo de um sofredor que tem esperança. O abandono é um apelo forte a Deus.
     Muitas vezes nós impomos aos outros um conceito de fé que não prevê a angústia, o medo. Aqueles que têm fé não são privilegiados quanto à isenção do sofrimento. Todos sofrem, a diferença está no sentido que o sofrimento alcança dentro da totalidade da vida. No Antigo Testamento, temos a figura de Jó, um homem devoto que experimenta o sofrimento. Deus compreende os lamentos de Jó. Ele sofre, indaga a razão do sofrimento, mas permanece temente a Deus. O próprio personagem explica sobre seu lamento: Se eu falar, a minha dor não cessa, e, calando-me eu, qual é o meu alívio?” (Jo 16, 6). O sofrimento do justo não deve se tornar escândalo para os que têm fé. Nós somos acostumados a buscar a razões para sofrimento, nós moralizamos as causas da dor e queremos ser isentos dela por causa da fé.
     As palavras de Jesus nos transpõem para esta realidade da fé. O sofrimento é inevitável. Há dores que temos a obrigação de evitá-las, cuidando da saúde e evitando a exposição a perigos. Somos conscientes disso. Outras dores surgem de processos dos quais somos inconscientes ou são consequências de ações nossas que foram inevitáveis. Pois se não podemos excluir o sofrimento da nossa vida, resta-nos saber conviver com ele, dando-lhe sentido. Este é o drama de Jesus que se sente desamparado, mas não perde a esperança, se assim não fosse, ele não teria dito no seu último suspiro: “Pai, em tuas mãos entrego meu Espírito”. O grito pelo abandono não dissipa a confiança.

7.    Sexta Frase: “Tudo está consumado!” (Jo 19, 30)

     Jesus percebe que não tem mais nada a fazer, diz: “Tudo está consumado!”. A palavra “consumada” no texto tem o sentido de “terminado, completo, cumprido”. Ou seja, Jesus fez tudo que tinha de ser feito, cumpriu plenamente o que pretendia. Principalmente, quando se entende sua morte como cumprimento das profecias. Não se pode, por outro lado, reduzir o ministério de Jesus à morte na cruz. Neste sentido, empobreceríamos a teologia da salvação. Tudo em Cristo nos salva: Sua encarnação, vida, morte e ressurreição.  Portanto, a consumação significa ‘fim’ no sentido de plenitude, de ápice.
     Para compreender o sentido do cumprimento da missão de Jesus nós temos de revisitar seu ministério. Na sinagoga de Nazaré, Jesus ao ler o profeta Isaías resume todo o seu ministério: “O Espírito do Senhor está sobre mim e Ele me consagrou para enviar a boa nova aos pobres, para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor!” (Lc 4, 18-19).
      Pelo batismo ele é reconhecido como o Filho Amado e o Espírito de Deus desce sobre ele, autorizando assim a sua missão (Lc 3, 21-22). Ele proclama a boa nova aos excluídos de Israel curando os cegos, libertando aqueles que estavam presos no egoísmo, na condição de escravos da Lei ou da própria vontade e proclamou o ano da graça do Senhor. O seu ato de redenção é o tempo novo da graça, o tempo propício para a reconciliação entre Deus e os homens; entre homens e homens. Enfim, o ministério se resume em suas palavras: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento”. (Mt 4, 17).

8.    Sétima Frase: “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!” (Lc 23, 46)

     Da hora sexta até a hora nona, o tempo escureceu, o véu do Santuário rasgou-se ao meio. E da boca de Jesus soou: “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito”. São as palavras do Salmo 31: “Tira-me da rede estendida contra mim, pois tu és minha força; em tuas mãos entrego meu espírito, és tu que resgatas Senhor” (Sl 31, 5-6). Jesus se abandona em Deus e o entrega a sua sorte, a sua vida nas mãos dele. Diante da morte, criamos muitas especulações. São reações próprias da nossa condição humana. A morte é aquele mergulho no desconhecido que causa espanto em todo mundo.
     Diante da obscuridade da morte, Jesus profere curtas palavras e se abandona em Deus. A atitude de abandono diante da imensidão do desconhecido é um caminho mais sábio. Muitas vezes durante os velórios, ficamos explicando a morte demais, criamos motivos, damos menos esperança aos enlutados e acabamos por aumentar-lhes mais ainda o sofrimento. Diante da morte o silêncio é a melhor linguagem.
     No fundo, diante da morte ressoam as palavras do apóstolo Paulo: “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido” (1 Cor 13, 12). Toda a loucura da cruz não foi compreendida pelos espectadores da cena da crucificação, somente a ressurreição ao terceiro dia deu sentido a todo o cenário de desespero e de fim.

9.    Considerações finais

     Portanto, a linguagem da cruz como loucura encontra sua explicação na fé no Ressuscitado.  Os discípulos de Emaús antes da notícia da ressurreição faziam essas indagações e receberam como resposta “Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram” (Lc 245, 25). E naquele dia, ao repartir o pão os discípulos o reconheceram e compreenderam a razão de tudo. O sentido do cenário da cruz se completa nas palavras do apóstolo Paulo: “e, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm” (1 Cor 15, 14). O cristianismo é a religião da cruz, mas de uma cruz de superação e de vida.

Sermão das Sete Palavras a ser proferido nesta sexta-feira, 29/03/2013, na
 Igreja Matriz de Conceição de Ipanema. Distribuição: Pastoral da Comunicação.




[1] Conferir em: http://www.vatican.va/holy_father/francesco/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130314_omelia-cardinali_it.html
[2] O nome do ‘bom ladrão’ aparece no Evangelho Apócrifo de Nicodemos (século IV) como sendo Dimas. O outro, o ‘mau ladrão’ foi chamado de Gestas.
[3] Conferir em: Adversus Haereses (Contra os Hereges), III.
[4] Conferir em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_261013.shtml

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Curso sobre o Catecismo da Igreja Católica


PÁROCO DE CONCEIÇÃO DE IPANEMA (MG) CERTIFICA CURSO SOBRE O CIC



No dia 23 de dezembro, o pároco de Conceição de Ipanema, padre Roberto Carlos Vilela entregou certificados aos catequistas que participaram durante este ano do Curso “Estudos Intensivos do Catecismo da Igreja Católica”, durante a missa das 9 horas, na Igreja Matriz.

domingo, 25 de novembro de 2012

Estudos catequéticos sobre Maria


MARIOLOGIA: INTRODUÇÃO GERAL

José Aristides da Silva Gamito

Introdução

A discussão em torno do papel de Maria no cristianismo é tão presente e extensa que surgiu um tratado específico para estudar os dogmas referentes à mãe de Jesus. Esta parte da teologia chama-se mariologia, isto é, estudo sobre Maria. As fontes para uma teologia sobre Maria são as Escrituras, os Concílios e as tradições litúrgicas.
Pelo menos as seguintes fontes são importantes para a discussão sobre Maria: a) Novo Testamento, b) Os cânones do Concílio de Éfeso, c) As fórmulas litúrgicas antigas, d) O Proto-Evangelho de Tiago e e) O Tránsitus Mariae.

Maria no Novo Testamento

As informações sobre Maria nos textos do Novo Testamento são escassas porque a atenção está toda voltada para Jesus.
Os atributos de Maria na Bíblia são: a) kekharitoméne – agraciada, cheia de graça (Lc 1, 28); b) eulogeméne – bendita entre as mulheres (Lc 1, 42); c) méter toú Kyríou – mãe do meu Senhor, d) kaí makaría he pisteúsasa – feliz porque acreditou (Lc 1, 45), e) makariousí – bem-aventurada. Essas expressões dão a Maria um destaque diante das outras mulheres por causa de Jesus.
Cada evangelista apresenta Maria sob um ponto de vista diferente: MARCOS (ano 60) – Ela é apresentada como a mãe carnal de Jesus. Não há destaque. MATEUS (ano 70) – Maria é apresentada aos judeus, portanto, destaca-se sua história como cumprimento das profecias. Maria é a parthénos (virgem/moça/não casada) que dará à luz o Emanuel. LUCAS (ano 80) - Maria é uma mulher de fé, mãe do Messias. E possui destaque. JOÃO (ano 90) – É a mediadora da fé e mãe da comunidade.

Os dogmas marianos definidos em concílios

Nos primeiros séculos, houve uma discussão sobre a relação de Maria com Cristo. Muitos hesitavam em chamá-la de mãe de Deus. E a consideravam apenas mãe de Jesus. A discussão gerou o debate sobre o Theotokos (Mãe de Deus) versus Christotokos (Mãe de Cristo).
O Concílio de Constantinopla II (381 d. C.) faz uma alusão à virgindade de Maria, incluindo no Credo a expressão por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria e se fez homem”.  A maternidade virginal sempre esteve presente nos escritos dos pais da Igreja. A polêmica maior se deu entre conciliação da natureza humana com a divina de Jesus.
O Concílio de Éfeso (431 d. C.) procura esclarecer em que sentido se diz que Maria é mãe de Deus: “Santa Maria é chamada Mãe de Deus, não por gerar a natureza divina de Jesus, mas por ter gerado sua natureza humana, a qual está unida ao Verbo na unidade da Pessoa.” E define dogmaticamente que ela é  a Theotokos.
Tempos depois, o Concílio de Calcedônia (451 d. C.) também define em seu símbolo de fé a dupla natureza de Jesus, declarando que Maria é mãe de Jesus, e se ao homem está unido a natureza divina, Maria também é mãe de Deus. A partir do Concílio de Calcedônia (533 d. C.) o dogma passou a ser universalmente aceito.

 Perspectiva protestante

O reformador Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564) e Ulrich Zwinglio (1484-1531) não desprezaram Maria. Apenas declararam que não seria lícito prestar culto a ela. Lutero tem Maria em alta estima chamando-a de “altamente louvada” na obra “Magnificat”.
            Foram os evangélicos pentecostais que começaram um combate à mariolatria que chegou a se tornar uma mariofobia, ou seja, uma desconsideração até com a Maria dos Evangelhos.

Os dogmas tardios

Os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria foram proclamados tardiamente. Já havia acenos nesta direção na prática cristã, mas foram definidos por escritos papais nos séculos XIX e XX.
Em 1854, o papa Pio IX declarou o dogma da Imaculada Conceição de Maria pela bula Ineffabilis Deus, afirmando:

(...) que a doutrina que defende que a beatíssima Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção, por singular graça de privilégio de Deus omnipotente e em atenção aos merecimentos de Jesus Cristo salvador do gênero humano, foi revelada por Deus e que, por isso deve ser admitida com fé firme e constante por todos os fiéis.

A Imaculada Conceição de Maria encontra respaldo na liturgia e também na narração do Proto-Evangelho de Tiago. Este texto datado de 60 d.C. até 150 d. C. apresenta a história de Maria desde sua concepção até a morte, fornece os nomes de seus pais (Joaquim e Ana) e vários detalhes sobre sua vida, além de enfatizar sua santidade. Os nomes dos irmãos de Jesus, por parte de pai, aparecem como sendo Judas, Josetos, Tiago, Simão, Lígia e Lídia (Ver Mc 6, 3). Este texto também fala de sua morte.
A concepção sem pecado está intimamente ligada à doutrina do pecado original desenvolvida por Agostinho. No século XII, houve uma discussão mais intensa sobre se Maria foi preservada do pecado original: Maculistas x imaculistas. Santo Anselmo, Pedro Lombardo, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino, São Boaventura e Alexandre de Hales, eram contrários à afirmação. Duns Escoto era a favor: Ela foi preservada pelos méritos do Redentor.
Em 1950, o papa Pio XII proclamou o dogma da Assunção de Maria por meio da Constituição Munificentissimus Deus.  Este dogma diz que Maria foi elevada ao Céu de corpo e alma. O dogma se baseou em antigas tradições sobre a morte de Maria.  Segundo essas tradições, Maria não teria passado pela morte, teria dormido (dormitação) e sido elevada ao Céu.
Existe um texto antigo que fala sobre a dormição de Maria chamado Tránsitus Mariae[1](A Passagem de Maria), do final do século II. É uma das raríssimas fontes sobre o assunto. Esta obra parece ser uma síntese de outras obras anteriores.
A principal fonte de preservação e consolidação desses dogmas foi a liturgia. Por exemplo, desde o século VI se celebra a Festa da Assunção. Desde cedo estes atributos marianos foram celebrados.

Maria à luz do Concílio Vaticano II
O Concílio Vaticano II acolhe os textos da Ineffabilis Deus e da Munificentissimus Deus e afirma que Maria foi escolhida desde a eternidade para ser a mãe de Deus. A Constituição Lumen Gentium considera Maria como a mãe espiritual de todos os fiéis.

Maria e o ecumenismo

Os dogmas marianos são pontos de divergência entre católicos e evangélicos. Mas quando se trata da Maria a partir da Bíblia é possível estabelecer um diálogo. Maria, sem dúvida, é a serva do Senhor, discípula, crente. A partir da Reforma esta foi visão presente entre os protestantes. Em contraposição, o catolicismo popular reagiu com uma visão triunfalista de Maria.
Existem dois excessos em relação a Maria: O maximalismo e o minimalismo. Enquanto uns elevam Maria além do que as Escrituras e os dogmas permitem, colocando num lugar que nem ela quereria ocupar, outros diminuem a figura de Maria, talvez por mero combate, e acabam perdendo até mesmo a inegável Maria da Bíblia.  Portanto, o sensato seria ‘a Maria nem o máximo e nem o mínimo, a ela somente o que é dela’, na dúvida, examine as Escrituras e a prudente Tradição.

REFERÊNCIAS

BOFF, Clodovis. Introdução à Mariologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
O Proto-Evangelho de Tiago.
Transitus Mariae. Tradução: Tránsito de la Bienaventurada Virgen María,.


[1] Segundo o Transitus Mariae, Maria viveu até os 59 anos e morreu no Getsêmani e foi elevada ao Céu por anjos, em um dia de domingo. O texto diz que João, o Teólogo, é autor da história.

domingo, 29 de julho de 2012

Historinha para Catequese

 

O PIQUENIQUE DOS SONHOS

 Tia Joaninha

C
arlinhos estava ansioso para chegar às férias, mas antes foi fazer um piquenique com seus colegas de classe.
Margarida, sua professora, falou para cada um da classe o que deveria levar.
Chegou o grande dia, lá foram eles, Carlinhos, Josefa, Antônia, Joaninha, Joaquim, Dulcinha, Renata, Vítor e Augusto.
O piquenique estava marcado para uma fazenda, onde moravam os pais da professora Margarida.
A criançada, assim que chegou à fazenda, começou a correr prá lá e pra cá. Sabe o que aconteceu? Sentiram-se muito cansados e com fome.
Só que na hora que foram lanchar, advinha o que aconteceu?
Os meninos dos moradores da fazenda também estavam juntos com os alunos da Tia Margarida.
Tia Margarida fica preocupada, mas não diz nada. Carlinhos, falou baixinho no ouvido da tia Margarida.
-Tia, o nosso lanche não vai dar!
Tia Margarida, pediu para que todos se assentassem. Todos se assentaram. Ela perguntou: Quem trouxe lanche?
Dos 9 alunos da tia Margarida, só quatro tinham levado lanches.
Tia margarida pergunta: Carlinhos, que lanche você trouxe?
Ele disse:
- 3 maçãs.
E você, Dulcinha?
-5 laranja.
E você, Josefa ?
-Eu trouxe 6 bananas.
E você, Joaquim?
-Eu trouxe 2 sacolas de pãezinhos.
Tia Margarida, pegou as frutas da criançada, fez uma salada de frutas, acrescentou o suco que ela tinha levado. Pegou as duas sacolas de pães do Joaquim, dividiu-os em pequenos pedaços e colocou numa cesta. Chamou as crianças para fazer a oração do Pai -Nosso, falou sobre a importância da partilha, e serviu o lanche, assim, distribuiu um pedaço de pão para cada um com um copinho de suco, depois serviu a salada de frutas. Eram ao todo 16 crianças. Todos comeram e saíram de lá cheios e ainda sobrou suco, salada de fruta e pedaços de pães. 

sábado, 9 de junho de 2012

Os artigos do Credo

 
OS PRINCIPAIS ARTIGOS DE FÉ DO SÍMBOLO APOSTÓLICO

Introdução

Tradicionalmente se diz que o texto do Credo[1] contém 12 princípios da fé cristã. Independente desta divisão, o Credo contém os principais mistérios professados pelo cristianismo. Ele é uma síntese daquilo que o cristão deve crer e define o que é o cristianismo.
A definição dos princípios da fé cristã foi um processo histórico. Aquilo desde cedo se acreditou e viveu somente mais tarde se tornou fórmula escrita. Em 325, no Concílio de Niceia foi oficializada uma fórmula do Credo. Em 381, foi aceita uma versão revista. As fórmulas que conhecemos hoje são o Símbolo Apostólico e o Símbolo Niceno-constantinopolitano. Existem vários credos, dentre eles o de Atanásio é mais difundido.

Os principais artigos

A Trindade: A fé cristã se baseia no princípio de que Deus é uno e subsiste em três pessoas: Pai, Filho e Espírito. Historicamente, o primeiro registro deste dogma aparece nas obras de Tertuliano (160-220). (Citação bíblica: Mt 28, 18-20).
A Encarnação: O Filho que existia desde a eternidade se encarnou em Jesus Cristo, tornando-se Deus e homem. A dualidade divina e humana de Jesus foi definida no Concílio de Calcedônia, em 451. (Citação bíblica: Mt Jo 1, 14).
A Maternidade Virginal: A Maria é a mãe corporal de Jesus e este foi concebido pelo Espírito de Deus. Ela é mãe sendo virgem. Maria foi definida Mãe de Deus no Concílio de Éfeso, em 431. (Citação bíblica: Lc 1, 43).
A Redenção: A vinda de Jesus perdoa os pecados dos homens e os torna justos e santos. A este processo se chama justificação. (Citações bíblicas: 1 Jo 2, 2/Lc 19, 10).
A Ressurreição de Jesus: O mistério da vida de Jesus tem seu auge com a sua ressurreição e o retorno para junto de Deus. (Citação bíblica: Lc 24, 1-12).
O Juízo: Haverá um juízo de discernimento entre aqueles que praticaram boas obras e aqueles que praticaram o mal. O juízo define o destino do homem. (Citação bíblica: Mt 25, 31-46).
A Autenticidade da Igreja: A Igreja é universal e acolhe todos aqueles que professam o nome de Jesus. Os atributos da Igreja são uma, santa, católica e apostólica. (Citação bíblica: Ef 4, 5-6).
A Imortalidade: Os mortos ressuscitarão na carne. (Citação bíblica: Jo 6, 51-54).
A Eternidade da vida: A vida eterna é a forma como todos os seres humanos subsistirão após a morte. (Citação bíblica: Jo 6, 51-54).

SUGESTÃO DE LEITURA:

Catecismo Jovem da Igreja Católica: Os números de 21 a 29. As respostas se referem a questões do Credo.
Prólogo do Evangelho de João: João 1, 1-18.



[1] As profissões de fé são chamadas de Credo porque é a primeira palavra do texto latino. Credo em latim significa “Eu creio”.

domingo, 6 de maio de 2012

As duas dimensões da fé cristã:

“EU CREIO” E “NÓS CREMOS”: A DIMENSÃO PESSOAL E A DIMENSÃO COMUNITÁRIA DA FÉ[1]

O culto público e a ação social representam o aspecto
comunitário da fé.
A fé cristã possui duas dimensões: A pessoal e a comunitária. A pregação é uma missão da Igreja. Esta propõe o que se acredita à pessoa que está sendo evangelizada. Esta, por sua vez, acolhe a proposta com sua fé.
Portanto, a fórmula e o conteúdo da fé são guardados e zelados comunitariamente. As ações litúrgicas e sociais são o aspecto comunitário da fé. As pessoas podem rezar sozinhas, expressar sua fé individualmente. Mas o cristianismo é essencialmente comunitário. As orações, as reuniões, ou seja, o culto público, tudo isso é vital para a sobrevivência do cristianismo dentro de sua autêntica proposta.
As pessoas reunidas têm mais força para desenvolver seus deveres cristãos. Pois quando elas se encontram, oram em conjunto, alimentam a fé uma das outras, conhecem os problemas da comunidade. Enfim, expressam sua comunhão de fé.
No âmbito pessoal, cada um expressa a sua fé conforme sua personalidade, seu modo de ser. Existe esta liberdade. Até porque a fé é uma resposta pessoal. O que devemos distinguir é que a fórmula da fé é definida comunitariamente. Assim como a Bíblia pode ser lida individualmente, mas é interpretada comunitariamente.
Seria difícil sustentar uma Igreja na qual cada pessoa tem sua doutrina. Naquilo que fundamental para a salvação deve ser de comum acordo acreditar. Se um católico, por exemplo, defende uma doutrina não-cristã. Ele tem direito de acreditar nela. Mas é preciso ter consciência de que ele não está sendo católico, pois não está havendo comunhão de fé. “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4,5).

Atos dos Apóstolos 2, 42:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.

[1] Questão debatida no encontro sobre Estudos do Catecismo em Conceição de Ipanema, no dia 5 de maio de 2012.

A predestinação e ação de Deus no mundo

PREDESTINAÇÃO: COMO DEUS AGE NA HISTÓRIA DAS PESSOAS?[1]

A fome na África. Como conciliar a bondade de Deus com
o sofrimento no mundo é o maior dilema da fé.
A predestinação é um conceito teológico que procura compreender a relação de Deus com o homem. E quer dizer que Deus na sua onisciência pode decidir antecipadamente os acontecimentos da vida de uma pessoa.
No cristianismo, a forma mais acentuada desta perspectiva está no calvinismo. Esta corrente teológica chegou afirmar que Deus escolhe previamente as pessoas que irão se salvar e as que irão se condenar. É um domínio total de Deus sobre a vida das pessoas. Neste sentido, o ser humano teria sua liberdade quase totalmente reduzida.
No catolicismo, acredita-se na dupla colaboração de Deus e do ser humano na construção da história de cada pessoa. Deus participa oferecendo a Graça e os dons necessários para a pessoa se desenvolver, viver bem e alcançar a felicidade e a própria salvação. Mas quem decide e acolhe esta participação de Deus é o homem. Deus respeita a liberdade do homem.
Portanto, os males no mundo não podem ser culpados diretamente a Deus. Ele não predestina pessoas para a felicidade e outras para a tragédia. Os males que acontecem com o ser humano têm basicamente três agentes:

a)      As ações da própria pessoal.
b)      As ações das outras pessoas com as quais convive.
c)      As ações da natureza que é falível.

Na maior parte dos acontecimentos a responsabilidade é do ser humano. Deus já lhe deu inteligência, discernimento, capacidade de realizar boas escolhas. Então, ele respeita a liberdade que o ser humano tem de fazer suas escolhas. A vida é uma teia de relações e nós não dependemos só de nossas ações, há cruzamentos de ações alheias e da natureza. Mas tudo ocorre na natureza, Deus não é o autor do mal. Se assim fosse Ele não poderia ser bom e misericordioso.


[1] Questão debatida no encontro sobre Estudos do Catecismo em Conceição de Ipanema, no dia 5 de maio de 2012.